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A propósito da Academia do Propósito

Academy of Purpose. Em inglês soa quase tudo melhor, mas felizmente nem tudo. Neste caso, sim, até porque falar do propósito de uma Academia do Propósito parece demasiado redundante. Mesmo assim, vale a pena expor o conceito.

Purpose is king. Outra vez em inglês, mas só porque fica mais no ouvido das novas gerações, a quem é exigido que falem várias línguas, sob pena de ficarem para trás, ou perderem alguns comboios profissionais decisivos. Porventura aqueles que os poderiam levar mais longe e mudar para sempre o rumo das suas vidas. Melhorando-as, quero dizer. Acrescentando-lhes conhecimentos, experiência e propósito, lá está. Dando mais sentido àquilo que fazem e à maneira como o fazem, de forma a potenciarem o seu impacto positivo no mundo.

Atualmente nenhum estudante se pode dar ao luxo de dizer que não gosta de falar outras línguas e, muito menos, pode desperdiçar-se ou perder tempo a argumentar que não tem jeito para as aprender. Com ou sem vocação, é imperativo falar e perceber outros idiomas. Ter experiência internacional, viajar, estudar fora, entender outras culturas e cultivar a abertura a outros povos, passaram a ser entradas obrigatórias no CV de qualquer jovem que hoje ainda está a estudar, mas amanhã já estará à procura de emprego num mundo altamente competitivo.

No auge da rentrée, numa semana em que as aulas estão a começar nas universidades, fazem eco as palavras de Daniel Traça, Diretor da Nova SBE, em entrevistas e artigos recentes, a propósito da inauguração do primeiro campus integralmente construído sem dinheiros públicos (continuo a achar admirável que tudo esteja a ser feito sem um único cêntimo do Estado e não me canso de proclamar este meu espanto por tão fabulosa construção num país como Portugal, com a nossa escala, e sem cultura de mecenato académico).

A internacionalização das escolas é a única resposta à globalização e às mudanças no mercado, diz Daniel Traça. As organizações são internacionais, o comércio é feito à escala mundial, e cada vez mais as transações, os projetos e as equipas são interculturais. Nesta lógica, as matérias que se ensinam e as competências que se treinam também têm que ser internacionais. Até porque o talento nunca foi estritamente nacional. Se há uma linguagem universal é a do talento.

Bolonha facilitou para sempre a mobilidade dos estudantes universitários, mas já começou a era em que também os jovens do secundário viajam e aprendem em escolas de outros países. Conheço cada vez mais casos, sei de cada vez mais bolsas de mérito ou empréstimos bancários contraídos por pais que apostam criteriosamente na internacionalização da educação dos seus filhos. Aliás eu própria estou próxima dessa realidade por ter um filho que regressou a Portugal depois de 6 anos de estudo noutros países (e em diferentes continentes) e acabo de me despedir de uma das minhas sobrinhas que, aos 16 anos, se candidatou para completar o liceu no estrangeiro e teve a sorte de ser selecionada para Xangai.

Alguns pais ainda se assustam com esta nova era e não se conformam (por assim dizer) com a saída precoce dos seus filhos, de suas casas. Aceitam com mais naturalidade que vão para Erasmus, quando já atingiram a maioridade, do que saiam quando ainda são meros adolescentes. Acontece que o mundo anda a uma velocidade tão acelerada que esta internacionalização, em modo teen,também já começa a ser uma tendência. E a fazer escola.

Conto uma história que a Teresa, esta minha sobrinha, me contou, sobre a sua mentora portuguesa, em Xangai: Júlia nasceu e cresceu na Madeira e quando tinha apenas 14 ou 15 anos, disse em casa que gostava de embarcar sozinha e cumprir um ano letivo num navio que navega à volta do mundo com alunos e professores de todo o mundo. Um navio-escola onde os alunos aprendem como se estivessem numa das melhores academias da atualidade.

Os pais terão respondido qualquer coisa como: “sim, sim, podes ir se conseguires juntar as dezenas de milhares de euros que essa aventura custa”. Talvez nem tenham pensado muito no assunto, porventura esperançados de que o sonho (ou a loucura) da filha ficasse por ali. Não ficou. Júlia não parou enquanto não contactou todas as empresas e pessoas que poderiam eventualmente ajudá-la a realizar este sonho e, passados meses, anunciou em casa que tinha patrocínios no valor exato da inscrição.

Júlia frequentou este navio-escola e, no ano seguinte, pouco tempo depois de ter voltado a casa, candidatou-se a uma outra escola internacional, onde foi aceite justamente por falar línguas e ter iniciativa. Por ser extraordinariamente proativa e ter capacidade para mobilizar pessoas, organizações e instituições.

Esta rapariga está agora a terminar o I.B. – International Baccalaureate – que prepara alunos de todo o mundo para entrarem nas melhores universidades internacionais e, ainda sem ter chegado aos 18 anos, já é mentora de alunas do 1º ano do I.B., em Xangai. Não a conheço pessoalmente, mas espero em breve poder conversar com ela. Mais, espero que ela volte a Portugal para a convidar a ir falar aos meus alunos, que são mais velhos que ela, mas merecem ouvir a sua história, contada na primeira pessoa.

Uma adolescente que é capaz de ter visão, ambição e paixão suficientes para mobilizar pessoas, organizações e instituições, convertendo-as em mecenas de uma aventura altamente pedagógica em alto mar, interessa-me como testemunho poderoso para universitários de qualquer área de especialidade.

Interessa-me, acima de tudo, pelo propósito com que esta ‘miúda’ age (e tantos como ela). Não lhe interessa apenas viajar, conhecer diferentes países e fazer amigos. Quer tudo isso, mas também quer deixar a sua marca no mundo e contribuir para transformar a sociedade. O sentido que as ‘Julias’ dão àquilo que fazem e à maneira como o fazem interessa em toda a linha. Interessa-me a mim, interessa a outros professores e educadores, a pais e tutores, mas de forma especial aos estudantes. Interessa pelo propósito, insisto. Pelo sentido que dão àquilo que fazem e pelo tesouro que acumulam para, no futuro, poderem fazer toda a diferença como gestores ou decisores, seja em que área for.

Volto às línguas e ao talento, para sublinhar uma certeza cada dia mais certa: a linguagem fundamental que nos dá mobilidade no mundo inteiro é e será sempre a linguagem do talento, mas não é possível revelar o talento se não formos capazes de falar e entender outras línguas. Além disso o talento destaca-se mais se for acompanhado de propósito. Deste sentido transformador dos que se tornaram mais conscientes e mais competentes por terem agido, por terem estudado e viajado com o propósito de acrescentarem valor às suas comunidades e, nesta lógica, mudarem o mundo à sua volta.

Por tudo isto e porque (lá vem o inglês) everyone needs a sense of purpose estamos a inaugurar um novo campus, mas também uma nova Academia do Propósito que, para incluir estudantes de todo o mundo e não deixar ninguém de fora, excluído, será conhecida por Academy of Purpose. Uma escola dentro da escola. Uma oportunidade de dar palco e visibilidade às novas gerações que arriscam e empreendem, que enfrentam os seus medos e aceitam desafios, que se atiram para longe e vão para fora de pé na certeza de que há um sentido para isso.

Porque todos precisamos de um sentido para a vida e para aquilo que fazemos, e porque é realmente uma necessidade básica universal, estamos a criar a Academia do Propósito. Com oradores imprevistos, com testemunhos inéditos, com atividades disruptivas, com vontade de perceber os ‘como’ essenciais. Como agir, como fazer, como mudar, como transformar, como resgatar, como fazer deste mundo um lugar melhor.

Fonte: Observador

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